Sommelier de abraços
Você sabe abraçar?
Desde que comecei a me relacionar com um carioca, muitas percepções na minha vida mudaram. Viver no RJ é, segundo percebo, uma experiência peculiar, mas muito interessante também é conviver com um carioca da Zona Oeste estando em Minas Gerais. (Carioca de Zona Sul nem é carioca rs)
Meu marido acha os mineiros muito protocolares. Mesmo sendo próximos, são distantes. Precisam avisar quando vão na casa de amigos e familiares. Evitam dormir nas casas uns dos outros, a não ser quando necessário.
O interessante das percepções dele é que ele, muitas vezes, está certo. Os Belorizontinos se encaixam em tudo isso. Lembram quando eu disse que tive uma criação muito árida, sem “eu te amo” e abraços? É geracional? Com certeza! Mas também tem a ver com o fato de que, muitas vezes, somos um povo com fama de acolhedor, mas normalmente isso é reservado pra quem vem de fora.
No meu aniversário, quis dar aos meus amigos a experiência de um café da manhã de hotel, que é uma das coisas que mais amo na vida. Fomos tomar café da manhã no Isabela Franco Gastronomia, um buffet sensacional que tem na Pampulha. Você paga um valor fixo e tem uma opção enorme de coisas maravilhosas para comer: biscoitos, doces, salgados, ovo mexido (não pode faltar), cachorro quente, até pizza tinha. Foi incrível. Um dos meus melhores aniversários, tranquilamente. E o melhor: só com pessoas que amo e que me querem bem.
E na hora do parabéns, uma coisa que me marcou muito: minha mãe, que sempre foi essa pessoa muito presente mas, ao mesmo tempo, muito distante, tinha sentado na ponta da mesa e veio lá da ponta (eu estava no meio) para cantar parabéns do meu lado e me abraçar. E foi um abraço de verdade.
Você sabia que existem abraços de mentira? Isso foi uma coisa que um amigo meu me ensinou.
Logo que me divorciei, eu fiquei muito isolada. Perdi praticamente todos os amigos que tinha, pois eram, descobri, amigos do meu ex marido, não meus. E minha mãe ficou um tempo de luto, pois não sabia pelo que eu tinha passado. Aquele casamento era mais importante pra ela que pra mim. Então eu fiquei por um tempo sem ter muito lugar no mundo. E tendo de me bastar, de mim pra mim mesma.
Esse amigo era um grande incentivador meu. Um mês depois de ter me separado, estava viajando sozinha pro Uruguai graças a ele. E lá conheci brasileiros num hostel e a primeira pessoa a ficar feliz por mim foi justamente uma desconhecida. Mas estou mudando de assunto. Fato é que quando eu abraçava meu amigo, ele dizia: “você não sabe abraçar!”.
E eu ficava: “Como assim?”. E ele: “você não abraça com o corpo todo, você abraça de longe. Isso não é abraço!”. E não era mesmo.
Em BH infelizmente se abraça muito assim. Um abraço de longe. Você às vezes usa um braço só, inclusive. Inclina pra frente e não encosta muito. Um abraço formal.
Aí esse meu amigo me abraçava de verdade. E a partir dessa análise dele, passei a abraçar de verdade também. Quem eu gosto e quem me abraça de volta. E no meu aniversário, recebi muitos abraços muito bonitos. Também recebi abraços de longe, mas sei que são pessoas que não tem muita intimidade comigo. E entendo a necessidade do abraço protocolar em algumas situações.
Meus amigos me abraçaram me desejando muita felicidade. Meus amigos, que são também minha família. Meu carioca aplica o conceito de família de Velozes e Furiosos. E estou aprendendo com ele a aplicar também.
E minha mãe me abraçou de verdade, depois de muito tempo. Acho que nem ela sabe o quão importante esse abraço foi pra mim.
Me sinto muito privilegiada por saber o que é um abraço de verdade.


Vim registrar aqui o comentário sobre a leitura feita pela manhã com cafezinho quente, pão na chapa e o relógio acusando meu atraso.
Tô maravilhado que, assim como na semana passada, encontrei uma ponte entre um texto seu e o meu. Mencionei “O Livro dos Abraços” do Galeano e, para além da capa bonita, o homem me pegou pelo título genial. Pensei “não tem como um livro ser chamado ‘O Livro dos Abraços’ ser algo ruim. Não há a menor possibilidade!”. Dito e feito.
A vida é muito curta para não aproveitar um abraço bem dado. Deixo aqui o meu pra você ;)