Saiba quem você é
Facilita muito as coisas. Eu demorei a descobrir.
Às vezes a gente simplesmente não sabe como começar um texto. Mas é importante escrevê-lo assim mesmo.
Me permitam esse balanço de vida anual que faço sempre no meu aniversário.
Às vésperas de completar meus 4.2., tenho analisado um bocado a minha vida, minhas prioridades, meus sonhos e o que ainda quero alcançar na estrada que me resta percorrer.
Eu tive uma infância que foi marcada por problemas financeiros. Meus pais, professores, ganhavam pouco, mas nunca deixaram que isso limitasse o que queriam para suas três filhas.
Meu pai queria que eu tivesse o que ele considerava a melhor educação. E ela era paga. E não era barata. E eu não compartilhava o pátio do recreio com outras crianças como eu, pelo contrário. Então foram 12 anos de muita luta, muito conhecimento acumulado e também muito bullying e briga com o mundo.
Apesar de todo esse esforço, em casa não havia muito espaço para abraços e beijos enquanto tentávamos sobreviver. Eu tive uma infância muito árida. Minha mãe lidando com várias coisas acontecendo simultaneamente. Meu pai tentando equilibrar tudo, na medida do possível. Sobrava pouco tempo pra dizer “eu te amo” e para sensibilidade. A linguagem do amor dos meus pais era estarmos vivas e saudáveis.
E eu lidava com isso me odiando, obedecendo e sendo antissocial, com poucas tentativas (externas) de que isso mudasse.
Nunca vou esquecer a felicidade de me formar e saber que eu nunca mais precisaria voltar naquele colégio e conviver com aquelas pessoas que tanto me desprezaram. Porque eu não tinha o cabelo certo, o tom de pele certa, as roupas certas, os comportamentos sociais aceitos, o dinheiro.
E o tanto que me irritava o fato de que eu não conseguia um namorado simplesmente porque a mídia me educou a querer um branco padrão? E a autoestima? Lá no pé.
Na faculdade, não foi muito diferente. Queria muito ter passado numa instituição pública, minha vida e a dos meus pais teria ficado imensamente mais fácil. Mas não foi dessa vez. Fiz jornalismo numa boa faculdade particular e fui motivo de chacota entre amigas da minha mãe, afinal quando foi que jornalismo deu dinheiro?
Tive a infelicidade de conhecer um cara que parecia ser, num primeiro momento, bem simpático e engraçado. Vi ali uma válvula de escape: finalmente eu teria alguém que me amasse! Eu ainda não sabia que era impossível ser amada de verdade se não houvesse um pingo de amor de mim para mim mesma. No final da faculdade, casamos. Eu já me achava velha e queria muito sair da casa dos meus pais. Eu tinha só 27 anos e queria escapar de tantos problemas financeiros e tanta disciplina.
Eu ainda não decidi se foi um erro ou não essa minha decisão, porque foram os piores oito anos da minha vida, casada com uma pessoa que era um bebê gigante, extremamente mimado e birrento, que tinha de ter as vontades satisfeitas o tempo inteiro. Mas foi um sofrimento que me ensinou muito. Ainda assim, preferia ter aprendido como é a vida de uma maneira menos árida. Não sei se tem muito jeito de amadurecer sem ser quebrando a cara.
Meu segundo aniversário é 18 de dezembro de 2018, dia da minha alforria e libertação de toda e qualquer expectativa que pudessem ter sobre mim. Dia que saiu a minha averbação do divórcio. Nunca vou me perdoar por não ter feito uma festa para comemorar. Pelo menos, fiz uma tatuagem, que me lembra desse momento de grande felicidade.
Quando fui ao cartório buscar o documento, a pessoa responsável disse que eu tinha de estar acompanhada pelo meu ex, o que não é verdade. Faltou orientação da minha advogada nesse sentido. Felizmente foi a última vez que o vi e tive notícias dele. Que continue assim. Daquele momento em diante, só vivenciei coisas maravilhosas. E pude me tornar dona da minha vida.

É muito libertador quando você decepciona sua família num nível que eles não esperam mais nada de você. A minha mãe finalmente entendeu, à força, que eu era adulta e dona da minha vida. Não sem muito sofrer, porque se importa extremamente com a opinião alheia. Meu pai me apoiou e foi fundamental para eu seguir em frente.
De lá pra cá, encontrei o amor próprio, e uma voz própria, o que me levou ao podcast. E o podcast me levou a encontrar meu companheiro de vida. Sempre penso que, se não fosse pelo podcast, jamais teríamos nos conhecido, eu em BH, ele no RJ. Eu em Humanas e ele em Exatas. Sou grata porque, mesmo com tudo que vivi, tudo me levou a ele. E nos unirmos nos levou também a um projeto que deu e dá muitos frutos e que enche os nossos dias.
Eu vivi coisas demais em tão pouco tempo. Parece que foi ontem que eu estava com meu maiô amarelo na beira da piscina de um Sesc saindo correndo da água e indo no pula pula toda molhada. Acho que eu já tinha 15 anos nessa época. Bobona, me recusando a crescer, curtindo minha infância, mesmo com tantas preocupações agregadas.
Hoje eu me sinto a mesma bobona, mas sei me cuidar. E sei que se a gente abaixa demais, mostra a bunda. Eu aprendi a me impor, empostar a voz e me fazer ser ouvida. Poucas coisas me causam medo hoje em dia. E 2026 traz novidades que eu quero encarar. Vamos ver como vai ser.






Maravilhoso ler esse seu depoimento no dia de hoje, Pri.
Hoje levei um papo pra terapia que dialoga muito com o teu relato, mas em outro âmbito. Acho que depois de muito tempo eu sei quem eu sou no âmbito profissional e a descoberta veio entre porradas e epifanias, de perceber o que vinha de fora segurando o que eu carregava aqui dentro. A beleza de tudo fica no aprendizado e o que vem durante e, principalmente, o que vem depois.